Jaguari com Sambaiba

Studio, 58 75015

AF 454

Itália

Veneza e o baile de máscaras

Metade de Alice embarcou naquele voo, sua parte responsável, que carrega seus sonhos na mala, oscilou as 12 horas entre o 24A e o 24B. Sua outra metade ficou em terra firme, ao som da guitarra espanhola, das labaredas de um vilarejo remoto que purga um vinho incidente na aventura e se alimenta ao aroma de Ramon.  A metade que se arremessava para São Paulo era Calvino tomando forma em uma narrativa plural, com saudade da metade mais selvagem e ingênua. Esta por sua vez, nunca acompanha ou embarca nos aviões, carros e sonhos mas, empresta suas garras para que os pensamentos não impeçam Alice de voar. Qual delas? Um silêncio atordoante se forma, as metades se despedem e se unem na distância.

Fotografia

Sul da França

Girassol e o Mediterrâneo

Tempo de voltar a navegar, entre outras coisas, mares violentos. Tempo de voltar a caminhar, entre outras coisas, terra firme. A doce visão do mar aberto desperta o gosto amargo da incerteza, que de incerto congela cada pensamento em uma fogueira de lembranças. Aqui tudo é possível, lá fora, nem tudo. O que desejo queimar escorre e se mistura com a terra em poeira e agora ficará para sempre. Sempre? talvez, até que a chuva nos deixe preso em um pensamento qualquer. E fazemos dele um mantra improvisado que perdura, como se estivéssemos de olhos fechados atravessando a cidade. Os sinais estão verdes? Há pouco para se saber. O que sei é que quero navegar, entre outras coisas, mares violentos. Tempo de voltar a caminhar, entre outras coisas, terra firme.

O menino

Tão logo o menino nasceu, descobriu o quanto o riso romperia as fronteiras. Do grupo escolar, seu olhar se emancipou nas quatro operações, de Vila Ventura, as asas, que as pautas não impediram de descobrir. Há pessoas que não escrevem entre dois riscos ligeiramente azuis, escrevem no ar. Vento e aventura. O riso recorrente volta em forma de cordel e a sabedoria de rir de si mesmo, das botinas apertadas, do arroz em querosene e da distância, sempre marcada e inalcansável, dos bailes e no tempo, Belmonte & Amaraí. De espírito livre, a vida foi generosa desde o pé na terra, um fio condutor e uma métrica, inexata, porém precisa. Quem dele precisou, foi exato, estava lá. Daqueles que passaram, uma história engraçada, uma cachaça boa e um recado da nona. Da cozinha, fazia a vida parecer simples e talvez realmente seja. Com a mão esquerda espalmada para o alto e a outra no ventre, dança sozinho, a seu modo e feliz.

Infância

Há tanta discussão sobre as crianças, o ensino, o futuro, que esbarramos no excesso de controle e as pessoas se apegam às suas opiniões. Estas tentam consertar coisas desnecessárias e impor receitas do tipo faixa preta. O que deveríamos pensar é em como garantir uma infância feliz. As crianças precisam de uma infância feliz.

Um dia na pizzaria, que tem brinquedos para distrair as crianças enquanto os pais comem pizza, um menino veio chorando e correndo em direção ao pai e disse: “Pai um menino me bateu!”. O pai protamente respondeu descartando um caroço de azeitona: “bata no estômago dele sem dó!”. Explicou, antes da próxima azeitona, como deveria ser feito para que o soco funcionasse. Certamente eu não tenho muita coisa em comum com este pai, se tentarmos dialogar nos detalhes, certamente eu sairei perdendo e as crianças também. Mas tenho um palpite de que temos coisas em comum, um pão de avó, uma bola furada na roseira, uma copa do mundo. Começaríamos a conversa pelo que nos fez feliz na infância para fazer uma infância feliz aos nossos filhos.

4 de paus

O melhor desta cidade é o improviso de alegria. Uma porta desconhecida, uma figura de óculos, de bom humor, bigode e estatura média. Eu que me faço de sério quando vejo tal naturalidade não posso mais me levar a sério, nem o lado exotérico, nem o lado cientista. O meu lado boteco fala mais alto. O senhor exclama: o que foi rapaz?! Eu não digo nada, pois nada é o melhor a dizer quando um desconhecido desconcerta seu mundo. Ele abre uma bolsa velha e me convida a jogar Bisca, vamos?! Fico sem jeito… e perco a partida antes de começar. Para cortar a conversa peço algo, ele não tem e diz com um sorriso largo. Eu disfarço e vou embora. Estou aliviado, sem aquela figura alegre, os livros e discos voltam a fazer sentido, pensamentos revirados voltam a ter certeza. Quando menos esperava, tropeçei na grama lisa…

Follow

Get every new post delivered to your Inbox

Join other followers: