A casa do Tio

by jaguari

O domingo somente começava com a chegada dos fuscas. O primeiro era Pedro e seu fusca branco. Em seguida, estacionava Luiz e seu fusca vinho. Depois do encontro com o irmão Raimundo e seus filhos, visitam o tio. Logo na chegada, cada um era reconhecido pela maneira de abrir o trinco do portão de madeira. Os passos marcavam a chegada e as sombras confirmavam pela janela da cozinha. Pedro tinha um respeito de menino e logo sentava no sofá, porém antes atravessava a cozinha e, apesar de seus 60 anos de vida, ou mais, tinha uma admiração protocolar pela tia. Apreciava a presença do tio e a tarde com o tio. Luiz era inquieto, de voz marcante e suas camisas de sambista com o maço de cigarros em relevo no peito. Atravessava a cozinha pedindo café e chegava na sala reclamando: onde estão os truqueiros?. Nunca sentava, mas precisava do toque do tio, como uma espécie de aval para os sonhos daquela semana.
Esta era uma parte do meu domingo. Repetiu-se por anos, até que Luiz e Pedro partiram e o tio ficou sozinho em sua sala. Mas gravou em mim o relato vivo de um prazer incondicional. Os sobrinhos não calculavam, nem a distância e nem os ganhos de comprimentarem o tio e passarem seu tempo atravessando a cozinha em reverência a Tia. Guardavam a pressa em um paletó de casamento, a falta de tempo na fartura de amigos e as preocupações em um conjunto de feijões que variava de zero a treze. Independentemente, precisavam do toque do tio para que a semana tivesse sorte e para que a sorte quisesse mais uma semana. Era talvez uma questão de fé, ilógica e sem nenhum objetivo (talvez também). Mas fizeram os domingos mais domingos.
Nos bancos escolares eu aprendi a calcular os ganhos e a temer as perdas. Não visitei meus tios aos domingos, não tenho palitó com cheiro de naftalina, os feijões são eletrônicos, mas na mesa de truco apenas eu e um teclado.
A fartura dos amigos? não há como guardar a falta de tempo. Todos aprenderam a calcular seus ganhos e perdas.

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